CONHEÇA O CARTUNISTA

GLAUCO

vilas boas

UMA OUTRA HISTÓRIA … MAIS UMA DE MUITAS OUTRAS

Em 1957, o norte do Paraná era a fronteira agrícola do Brasil. Surgiam e prosperavam algumas pequenas cidades, todas voltadas para a agricultura em solo fértil. A terra era chamada de roxa, e quem nascia lá era chamado de “pé vermelho”. Jandaia do Sul era uma dessas cidades e foi onde, naquele ano, Glauco nasceu. Seu pai, o paulista Odilon Vilas Boas, tinha ido para lá inaugurar e dirigir uma agência do Banco do Brasil para ajudar na formação das novas fazendas. E lá se casou e teve seis filhos, cinco meninos e uma menina. Glauco foi o quinto filho. Cidú, sua mãe, era filha do farmacêutico, delegado e parteiro da cidade, o vô Quinzim.

Recatada, Cidú não permitia, apesar da insistência, que seu pai fizesse seus partos, recorrendo a um obstetra da cidade, embora concebesse seus filhos em casa. Quinzim não se conformava. Quando chegou a vez do Glauco, postou-se no bar da esquina da casa da filha e ficou à espreita. Era boca da noite quando o médico apontou na rua para atender o chamado. Dizendo que o parto ia demorar, Quinzim o convenceu a tomar umas enquanto aguardavam o chamado. Deu um porre no doutor e lá foi ele fazer o que mais queria: pôr no mundo um neto seu. Assim que Glauco nasceu, o avô colocou em sua boca umas gotinhas de limão, dizendo que era para ele “nunca mais fazer cara feia na vida”. A fórmula deu certo. Glauco passou a vida fazendo graça.

Para Glauco, qualquer um com sorriso largo era uma boa pessoa. Esse amor ele ganhou, primeiramente, na infância, com seu pai, procurando nas estrelas das noites límpidas do Paraná um sinal de disco voador. Também nos dias do interior brasileiro dos anos 1960, com os irmãos, vivendo no cenário rural com carros de boi, as brincadeiras de menino da roça. Teve tempo, ainda no Paraná, de formar uma banda de rock, a BR-3, e tocar nos bailes do interior, executando baladas dos Beatles e Rolling Stones. Numa bela tarde de domingo seu pai se foi, aos 52 anos de idade. Cidú não teve dúvida, catou os filhos e as tralhas e foi dar bom estudo à prole, em Ribeirão Preto, uma cidade tipo capital da terra roxa, meca dos “pés vermelhos”.

Eram anos de chumbo e os jornalistas combativos eram presos ou demitidos. Muitos recorreram a jornais do interior para sobreviver. Alguns, como Sergio de Souza e José Hamilton Ribeiro, foram parar num jornal diário de Ribeirão. Glauco desenhava enquanto seus irmãos mais velhos cursavam a faculdade. Eram tiras de humor e queria publicá-las. Tinha de 15 para 16 anos quando pegou um caderno e foi mostrá-lo pro Zé Hamilton. Lá ficou sabendo que a imprensa brasileira não publicava cartunistas nacionais porque os americanos vendiam tiras de segunda-mão de seus autores a um preço muito barato. Mas foi contratado para publicar charges políticas diariamente. Zé Hamilton tinha percebido nos traços toscos dos seus desenhos, sua genialidade.

Glauco conseguiu fazer graça com uma charge sobre a tortura e com ela ganhar o prêmio do Salão do Humor de Piracicaba. Henfil estava lá e o adotou. E foi assim que Glauco chegou a São Paulo, convidado para morar com Henfil em seu apartamento-estúdio. Foi nesse local que conheceu Laerte e Angeli e concebeu o Geraldão, inspirado em suas memórias dos longos dias de Ribeirão. Os assaltos à geladeira, as fantasias sexuais, os embates com a mãe, tudo ele havia vivido de certa forma e agora ganhavam graça e vida através de suas tiras e suas saudades. E foi com Geraldão que Glauco iniciou sua carreira de três décadas na Folha de S.Paulo.

Laerte disse certa vez: “Glauco é incapaz de tomar um táxi e não ficar amigo de infância do taxista”. Ele e Angeli formaram com o Glauco “Los 3 Amigos”, fruto da amizade de infância gerada no apê do Henfil. Essa amizade se tornou pública graças aos quatros dos três mosqueteiros: Toninho Mendes, o Publisher, e também o organizador deste livro. Na época, editor de Circo Editorial, fez Glauco criar narrativas maiores que três quadros. Era a revista GERALDÃO, com pau duro no título, onde estavam ocultos os Geraldões de todas as gerações de brasileiros. Geraldão nasceu Geraldão. Geraldinho veio depois que Glauco teve os seus filhos. Mas essa é uma outra história… mais uma de muitas outras.

 

Orlando Cardoso de Oliveira  

personagens

para colorir

SEPARAMOS ALGUNS TRABALHOS ORIGINAIS DO GLAUCO PARA VOCÊ SE DIVERTIR E COLORIR